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Crônicas

Ontem, quando eu era criança

“Que és Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos de rosa sob uma outra designação teria igual perfume.”

Shakespeare , William: Romeu e Julieta. Ato II, Cena II. Londres, 1595.

 

Ontem, quando eu era criança, não pensava no que seria no futuro. Não pensava se faria contas ou comporia versos, nem se encantaria mentes ou faria incisões em órgãos. Não tinha a pretensão dos tolos, muito menos a sabedoria dos mestres. Algumas dessas coisas, ainda não penso, outras me torturam, e outras tantas me deliciam. O bom de ser adulto é deliciar-se com a percepção do mundo, navegando no ego vaidoso de quem observa a própria inteligência.

Divagações? Ontem não as tinha. Tinha certezas. A primeira certeza de que me contam é de que meu nome é Dehdo. Pois que dizem todos os místicos, adivinhos e profetas da nova existência: deixe a tua criança interior ressurgir. Deixo.

Vinde a mim pequeno inquieto, de olhar atento, dos olhos de mel que me fizeram diferente dos meus irmãos. Dos cabelos encaracolados que confundiram as mentes cheias de preconceito e sedentas por respostas retas. Da dança em cima da cadeira que me fazia flutuar na melodia, distante dos olhos curiosos e cheios de malícia. Vinde, e ficai. Ficai na esperança de me fazer um melhor guia, de me curar as feridas que fizemos juntos. Ficai, pois tenho muito a te contar, e tens muito a me lembrar.

Não será fácil nossa jornada junta, como não foi quando estávamos por conta própria. Te prometo algumas coisas, que estou muito mais resiliente, que posso te proteger dos olhares e das atitudes que te magoavam, que sou mais forte do que fostes na relação com os outros, mas menos competente do que eras em criar, em querer. Lembra aquela vez que uma menina não quis dançar contigo pois ela disse que você tinha o sorriso amarelo, e que você foi pro final da fila e ganhou uma prenda menos fútil, mais amorosa, mais parceira, lembra como você ficou triste e isso te machucou profundamente? Como as crianças sabem ser más! E como sabem ser boas. Hoje eu agradeço por ela ter feito o que fez conosco, permitiu que uma nova alma se aproximasse, que te deu apoio, que disse respira, vamos lá, vai dar tudo certo, que sorria de volta quando você sorria…. O que eu posso te ensinar hoje garoto? A ser mais grato pela vida, pelas pessoas, a se doar mais, a esperar menos, sabendo que pode vir mais, a encantar os olhos de uma forma realista…

E o que tu podes me ensinar? Se fizeres dois por cento do que fizestes a vida toda por mim, já estarei satisfeito. Me lembra das alegrias, que te ajudo a superar as dores. Me lembra da criatividade que te ajudo a superar a indisciplina. Me lembra de como fomos um só, que eu te ensino que poderemos ser muitos! Seja bem-vindo de volta, minha certeza, minha esperança. Vejo teus olhos na minha tela mental, as lágrimas brotam suaves. Sou grato pela tua existência, e não te prometo mais nada, se estiveres ao meu lado não teremos promessas, teremos realizações. Por isso, feliz dia da criança, pra ti, meu eu eterno, meu primeiro professor.